domingo, 11 de novembro de 2012

Do outro lado - Fatih Akin. Projeto Um filme quando valha à pena



Do outro Lado
(TUR/AL.2010)
Diretor: Fatih Akin

Um velho escroto vai a um puteiro, descobre que a moça é turca e lhe propoe morar e transar exclusivamente com ele, que lhe pagaria os 3 mil euros que levantava no serviço sexual. “Como?” pergunta ela, ao que ele responde que tem sua aposentadoria, uns terrenos na Turquia, e o filho que é professor em uma universidade alemã “complementaria” o que fosse necessário.

Ela topa, o velho que é um escroto de marca maior, acaba por matar Yeter, sua acompanhante oficial, e vai em cana. Seu filho desgostoso parte para a Turquia, tentando achar a filha de Yeter a quem deseja auxiliar, pagando-lhe os estudos. Acaba por comprar uma livraria especializada em obras em alemão no centro de Istambul.

Ele nunca encontrará a filha, revolucionária radical que acaba fugindo para a Alemanha quando ele está na Turquia, envolvendo-se com uma alemã e ....

O filme é todo especular, situações que se espelham, nunca da mesma forma, mas sempre iluminando “o outro lado”, a outra face da moeda, que é a mesma moeda, mas é também outra moeda, são situações que se aproximam, mas nunca são iguais, o que é um modo muito delicado de dizer das diferenças culturais, sem marcar valores, mas sem omitir diferenças, e é pela diferença que poderá ocorrer o reconhecimento da identidade, não a que se imaginava ter, mas aquela única, forjada na intensidade da vida vivida na relação última, mas esta parte eu não posso contar, veja!

Eu adoraria poder recomendar os outros filmes do diretor Fatih Akin, mas infelizmente ele é bem irregular, seu Contra a Parede é apenas médio, e o filme posterior a Do outro lado, é o ruim Soul Kitchen, então não se anime muito na filmografia, infelizmente...







sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Bruno Schulz - Ficção Completa - Projeto Um livro sempre



Bruno Schulz
Ficção completa
CosacNaif, 2012

Há os clássicos. Alguns o são porque com eles nasce uma linha condutora, outros porque mandam que sejam clássicos, outros ainda porque são irrecusavelmente maravilhosos e arrebatadores e outros ainda porque de tão chatos ganham um status de especiais, quando o deveriam ter de ilegíveis.

E há os que não são clássicos, autores e livros perdidos na multidão, no oceano de textos e escritos, que tanto poderiam passar desapercebidos que ninguém, ou quase ninguém, ou muito poucos os conhecem. Mas estão ali, na espreita e na espera, que algum dia tomemos conhecimento deles e os achemos. Desfazendo a injustiça de não serem divulgados pela crítica.

E então, “descobri” Bruno Schulz. As aspas são mais que necessárias porque ele sempre esteve ali, eu é que na ignorância não sabia que ele esperava. E é dessas descobertas que a gente fica maravilhado, porque não é um autor, mas um mundo que se abre, descortinando não histórias e situações, mas universos e principalmente formas de ver, ler e estar no universo.

Transcrevo as primeiras linhas de seu Lojas de Canela:
Em julho meu pai viajava para uma estação de águas e me deixava entregue, com minha mãe e meu irmão mais velho, à voragem dos dias de verão, estonteantes e brancos de calor. Embriagados com a luz, folheávamos esse grande livro das férias, cujas folhas todas ardiam de tanto fulgor e tinham no fundo a polpa das peras dourada, doce de desmaiar.
Nas manhãs luminosas, Adela voltava do fogo do dia incandescente como Pomona, despejando de sua cesta a beleza colorida do sol – as cerejas brilhantes, cheias de água sob a casca transparente (...)

Não sei você, mas eu fiquei estonteado com a profusão de cores, a intensidade da luz, a violência dos odores e sabores vivos, e a excelência dos adjetivos, num excesso notável tanto pelo uso como pela riqueza. E daí são linhas e mais linhas, degustadas na exuberância cuidadosa de uma narrativa rica em detalhes, nuances e sinais: cada elemento parece ser importante e dele derivam novos movimentos nas histórias.

E as histórias! Porque não são apenas narrativas, mas verdadeiras criações de mundos ficcionais intensos, desvairados até, que nos arrancam do chão firme e nos lançam na fantasia simbólica de sentidos abertos: somos arrastados para fora do âmbito da racionalidade e na fantasia do improvável entendemos que a arte é isto, fazer do impossível o território da vida, para viver a abertura no cotidiano, alargando as brechas do possível até sairmos do conhecido, até estarmos alem do que conseguiríamos pensar mas que, apesar disso, conseguimos entender, desfrutar e apaixonar-nos.

Então, se a estante dos clássicos serve para algo, que seja para acolher este gigante pouco divulgado, mas gigante, impreterivelmente gigante.


quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Formação do império americano - Projeto um livro sempre



Luiz Alberto Moniz Bandeira – Formação do império americano

Este livro não é o Inferno de Dante, mas a recomendação de que deixemos ali a esperança os que entrem, cabe tão bem quanto naquele. Este é um livro de desesperança. É um livro de vertiginosa e ampla apresentação de uma história que ainda nos engloba e à qual estamos impreterivelmente sujeitos, a história da formação do império americano.

Creio ser evidente o porque este império tem mais importância atualmente que outros, afinal é a ele que estamos sujeitados, é com ele que as relações políticas, econômicas e militares ocorrem sempre de modo importante, e é o peso dessas ações (ou impedimentos) que altera, modifica ou impulsiona outros desdobramentos, com outros países, regiões e personalidades.

Foi assustador ler os bastidores de diversos eventos que conhecia pelo lado “solar”, pelo que é contado, publicado, pelo que pôde vir à luz, e entender que aquilo era a parte que se desejava ser mostrada, que o buraco (do inferno...) é muito mais profundo.

Há a parte da história da formação dos EUA como país, que serve para delinear a mentalidade expansionista massiva. Conforme o calendário caminha para o século XX vemos o país Estados Unidos tornar-se a potência que é hoje, e o jogo que fez (na verdade os jogos, porque são sempre muitos, mas muitos mesmo, jogados simultaneamente) para chegar a esse lugar e principalmente para manter-se. Todo o confronto propagandeado com a URSS e a luta contra o comunismo, uma bobagem que visava tão somente a ampliação da maquina de guerra.

E é apavorante entender como o complexo militar é tão, mas tão influente na política expansionista, criando meios para fazer-se sempre mais importante, custoso e presente. Independe de quem é o presidente e suas promessas, uns mais e outros menos, uns mais explícitos como os Bush pai e filho, gerados na caterva petroleira-bélica da América caipira, ou Clinton, de discurso menos beligerante mas que manteve todas as ações de seus antecessores.

O livro termina pouco depois da segunda eleição de Bush Junior, antes portanto da chegada de Obama ao poder, mas fica claro o porque da desilusão com este último no Capitólio: qualquer presidente se curvará ao mando industrial, não terá nenhuma possibilidade de enfrentar a máquina de guerra, ela já anda por si só, como as corporações já andam por si sós, na busca de lucros transnacionais, sem preocupações alem da propaganda de suas boas intenções e dos reais ganhos.

Por isso iniciei este texto com a lembrança do Inferno, porque não há salvação nesse movimento, não a curto prazo pelo menos, como todo império, este também ruirá, e os sinais da queda se acumulam, o aterrorizante é entender que num mundo tão globalizado, a ruína do império americano será a queda do mundo, the end of the world as we know it. Quem viver verá...


terça-feira, 2 de outubro de 2012

Intocáveis - Projeto Um filme quando valha a pena



Intocáveis
(Fra.2011)
Diretores: Eric Toledano, Olivier Nakache

Tenho dificuldade com comédias. Acho-as ridículas, gênero menor do cinema, apelando para a vulgarização, para o que temos de mais baixo, para preconceitos primários, ou ainda são fundadas em idéias, são comédias para entender e “rir” porque a idéia deveria ser muito engraçada, ainda que sua realização como filme não tenha a menor graça.

Então quando fico sabendo de alguma comédia arrebatando público saio correndo na direção oposta, as vezes em que tentei assistir, me arrependi de não ter feito os 100 metros rasos na linha de fuga. Por isso minha surpresa e alegria foi incontinenti ao assistir Intocáveis, já sabendo que era o filme francês de maior bilheteria e sucesso do ano.

Porque o filme é genial. Não consigo imaginar quem no mundo não gostará deste filme. Engraçado, inteligente, esperto, crítico, ácido até, mas acima de tudo, amoroso e cuidadoso com a humanidade da platéia, que consegue divertir-se sem ter de contentar-se em chafurdar na pocilga de preconceitos e vulgaridades para rir aquele riso repetido pelo (e do) que se conhece.

Uma das piores construções do fim do século XX e começo do XXI é o politicamente correto, essa necessidade de fazer de conta que não há diferenças, não há preconceitos e não somos todos atravessados por dificuldades em reconhecer o outro na estatura que ele gostaria de ter. O contorcionismo verbal que nos faz chamar o índio de nativo sul americano, ou o negro de afro descendente pode acalmar ânimos preconceituosos, mas esconde tudo o que sentimos pelos índios, negros, mulheres, minorias variadas e quaisquer outros que não sejam nossa imagem e semelhança.  Quando o filme foca a relação de um tetraplégico milionário branco e seu cuidador, um negro sem a menor queda pela condescendência, abre um espaço arriscado para que aquela série de preconceitos e vulgaridades tomasse a frente, ou para que o politicamente correto se fizesse ouvir, pela assepsia de piadas cuidadas a não ofender e ferir espíritos mais sensíveis.

Nada disso, temos aqui um humor vigoroso, sem pruridos de tocar temas delicados, rindo de si mesmo, do outro, do mundo e da platéia, de ícones culturais, da “alta” cultura, das relações amorosas, dos preconceitos, da cretinice revestida de bondade humana, deixando uma única coisa em pé depois de hora e meia de riso e momentos emocionados: a vida só faz sentido se enfrentada com a honestidade de que as diferenças são diferenças, e que nós nos fazemos.




terça-feira, 11 de setembro de 2012

O equilibrista - Projeto Um filme quando valha a pena



O equilibrista
(EUA.2008)
Diretor: James Marsh


Um filme bom é aquele que você lembra, quer assistir de novo, assiste e termina com a firme impressão que o filme é bom mesmo!

Este é um desses filmes. Quando ganhou o Oscar de melhor documentário em 2009 achei que valia a pena dar uma olhada, sempre com um pé atrás porque Oscar não é premio para a qualidade, mas para a Indústria do cinema então...

E amei. Passados anos resolvi rever, em sessão familiar, e descobrir se minhas lembranças teriam se transformado em outra coisa. Não. O filme é de uma poesia rara no cinema e mais rara ainda num documentário, que por definição do gênero, “documenta” e, com isso, deixa usualmente pouca margem para a poesia e a imaginação.

Um equilibrista e seus amigos tramam estender um cabo entre as torres gêmeas de Manhattan, estamos no ano de 1974, os EUA não eram a potência que se tornaram depois, não criavam tantos inimigos como criaram depois e nem tampouco tinham passado pelo 11 de setembro que... destruiu as torres gêmeas! Ninguém nunca mais poderá fazer isso de novo! Como um verdadeiro ato poético, ocorreu uma única e irrecuperável vez.

Toda a trama da preparação, as visitas à construção das torres, os preparativos meticulosamente detalhados, a reconstrução do “como teria sido”, as idas e vindas em flashbacks, entrevistas de época e atuais, com todos os participantes, tudo isso vai construindo um clima emocional, envolvente, que culmina com as imagens do dia da travessia.

E ali entendemos o que é arte. Ali vemos que um equilibrista, alguém que não relacionamos diretamente com o meio artístico, mas com a técnica do equilíbrio e do circo, concretizar depois de muitas horas de preparação, um espetáculo: o espetáculo de criar poesia na cidade, e de fazer para todos um evento único, abrir um espaço de ruptura com a correria, os sentidos do viver urbano e do viver em si: o risco da morte valendo a beleza do desafiar.