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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Bruno Schulz - Ficção Completa - Projeto Um livro sempre



Bruno Schulz
Ficção completa
CosacNaif, 2012

Há os clássicos. Alguns o são porque com eles nasce uma linha condutora, outros porque mandam que sejam clássicos, outros ainda porque são irrecusavelmente maravilhosos e arrebatadores e outros ainda porque de tão chatos ganham um status de especiais, quando o deveriam ter de ilegíveis.

E há os que não são clássicos, autores e livros perdidos na multidão, no oceano de textos e escritos, que tanto poderiam passar desapercebidos que ninguém, ou quase ninguém, ou muito poucos os conhecem. Mas estão ali, na espreita e na espera, que algum dia tomemos conhecimento deles e os achemos. Desfazendo a injustiça de não serem divulgados pela crítica.

E então, “descobri” Bruno Schulz. As aspas são mais que necessárias porque ele sempre esteve ali, eu é que na ignorância não sabia que ele esperava. E é dessas descobertas que a gente fica maravilhado, porque não é um autor, mas um mundo que se abre, descortinando não histórias e situações, mas universos e principalmente formas de ver, ler e estar no universo.

Transcrevo as primeiras linhas de seu Lojas de Canela:
Em julho meu pai viajava para uma estação de águas e me deixava entregue, com minha mãe e meu irmão mais velho, à voragem dos dias de verão, estonteantes e brancos de calor. Embriagados com a luz, folheávamos esse grande livro das férias, cujas folhas todas ardiam de tanto fulgor e tinham no fundo a polpa das peras dourada, doce de desmaiar.
Nas manhãs luminosas, Adela voltava do fogo do dia incandescente como Pomona, despejando de sua cesta a beleza colorida do sol – as cerejas brilhantes, cheias de água sob a casca transparente (...)

Não sei você, mas eu fiquei estonteado com a profusão de cores, a intensidade da luz, a violência dos odores e sabores vivos, e a excelência dos adjetivos, num excesso notável tanto pelo uso como pela riqueza. E daí são linhas e mais linhas, degustadas na exuberância cuidadosa de uma narrativa rica em detalhes, nuances e sinais: cada elemento parece ser importante e dele derivam novos movimentos nas histórias.

E as histórias! Porque não são apenas narrativas, mas verdadeiras criações de mundos ficcionais intensos, desvairados até, que nos arrancam do chão firme e nos lançam na fantasia simbólica de sentidos abertos: somos arrastados para fora do âmbito da racionalidade e na fantasia do improvável entendemos que a arte é isto, fazer do impossível o território da vida, para viver a abertura no cotidiano, alargando as brechas do possível até sairmos do conhecido, até estarmos alem do que conseguiríamos pensar mas que, apesar disso, conseguimos entender, desfrutar e apaixonar-nos.

Então, se a estante dos clássicos serve para algo, que seja para acolher este gigante pouco divulgado, mas gigante, impreterivelmente gigante.


terça-feira, 11 de setembro de 2012

O equilibrista - Projeto Um filme quando valha a pena



O equilibrista
(EUA.2008)
Diretor: James Marsh


Um filme bom é aquele que você lembra, quer assistir de novo, assiste e termina com a firme impressão que o filme é bom mesmo!

Este é um desses filmes. Quando ganhou o Oscar de melhor documentário em 2009 achei que valia a pena dar uma olhada, sempre com um pé atrás porque Oscar não é premio para a qualidade, mas para a Indústria do cinema então...

E amei. Passados anos resolvi rever, em sessão familiar, e descobrir se minhas lembranças teriam se transformado em outra coisa. Não. O filme é de uma poesia rara no cinema e mais rara ainda num documentário, que por definição do gênero, “documenta” e, com isso, deixa usualmente pouca margem para a poesia e a imaginação.

Um equilibrista e seus amigos tramam estender um cabo entre as torres gêmeas de Manhattan, estamos no ano de 1974, os EUA não eram a potência que se tornaram depois, não criavam tantos inimigos como criaram depois e nem tampouco tinham passado pelo 11 de setembro que... destruiu as torres gêmeas! Ninguém nunca mais poderá fazer isso de novo! Como um verdadeiro ato poético, ocorreu uma única e irrecuperável vez.

Toda a trama da preparação, as visitas à construção das torres, os preparativos meticulosamente detalhados, a reconstrução do “como teria sido”, as idas e vindas em flashbacks, entrevistas de época e atuais, com todos os participantes, tudo isso vai construindo um clima emocional, envolvente, que culmina com as imagens do dia da travessia.

E ali entendemos o que é arte. Ali vemos que um equilibrista, alguém que não relacionamos diretamente com o meio artístico, mas com a técnica do equilíbrio e do circo, concretizar depois de muitas horas de preparação, um espetáculo: o espetáculo de criar poesia na cidade, e de fazer para todos um evento único, abrir um espaço de ruptura com a correria, os sentidos do viver urbano e do viver em si: o risco da morte valendo a beleza do desafiar.