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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

A família - Ettore Scola. Projeto Um filme quando valha à pena



A família

Ettore Scola
Itália – 1987

Filmes italianos são divertidos ao mostrar as famílias, porque famílias italianas são MUITO divertidas. Falam todos ao mesmo tempo, brigam e se reconciliam ao mesmo tempo, são dramáticos, explosivos, amorosos, duros, inteligentes, cretinos, sagazes, teimosos, tudo e todos ao mesmo tempo...

Então fazer um filme de uma família italiana já é meio caminho andado para uma alegria de duas horas. Se como diretor temos o Scola, aí a alegria é quase certeira, e é mesmo no caso deste filme. Você pode assistir com a certeza de um olhar de 80 anos atravessando várias gerações de uma família, seus amores, rupturas, reconciliações, afetos, desavenças, reconciliações, conquistas, derrotas, reconciliações, e chegará ao final feliz por ter participado desse estudo sociológico humorístico artístico que o filme é: você, se não o sabia antes, passa a ter certeza de como funciona uma família carcamana.

Há filmes do Scola que pecam por excesso de personagens e um ritmo arrastado, O terraço ou o Jantar por exemplo. Aqui entretanto, mesmo com uma miríade de personagens, que muitas vezes temos de recordar quem é quem, o ritmo é perfeito, e somos conduzidos agilmente pelo andar do tempo, que leva e traz pessoas, acontecimentos e despedidas.

Em suma, um filmão, não perca!!









sábado, 26 de julho de 2014

Meu irmão é filho único - Projeto Um filme quando valha a pena



Meu irmão é filho único
Itália, 2007
Diretora: Daniele Luchetti

O título é esdrúxulo, mas naquele grau que ainda conseguimos arriscar: será que pode quem sabe com sorte ser um filme assistível???

E que bom que arriscamos, porque o filme é ótimo, divertido, leve, instigante e interessante. Um filmão. Sempre que um filme entra nesta categoria pode ser difícil dizer sobre o quê ele versa, e este não é diferente.

Há a briga constante e interminável dos dois irmãos; há o desconforto da família inteira com o caçula, que inicialmente seria padre, mas é questionador demais para seguir esse caminho; há a questão política, um dos irmãos é comunista e este caçula se decide pelo facismo, ressuscitando um movimento de veneração ao Duce; há o que em literatura se chama “romance de formaçao”, o processo para que aquele moleque perdido se torne um adulto... perdido; há o confronto dessas visões políticas, suas semelhanças e idiosincrasias (e idiotices...); As idiotices de cada partido político, os cretinismos, as regras e as situações constrangedoramente acéfalas; há o enredo amoroso com a namorada do irmão sendo cobiçada por este mesmo caçula teimoso. Em suma, uma quantidade razoável de enredos entrelaçados, sem que isso torne confuso ou chato o filme, muito pelo contrário, ele vai cada vez ficando mais rico e cativante.

E claro, há a divertidíssima forma italiana de educação e trato ente as pessoas, tapas na cabeça, gritos e ofensas distribuídas constantemente o que dão um charme todo especial a cada cena, sempre recheada do tempero local, um dialeto nortista italiano peculiarmente incompreensível...







quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

O som e a fúria - Projeto Um livro Sempre



O som e a fúria
EUA: 1929
William Faulkner

Primeiro o título. Intenso, chamativo, despertando a curiosidade do querer saber do que se trata, e mais que isso, criando uma expectativa de que ali deve haver algo que valha a pena, um bom início para um livro. Depois a origem, porque é Shakespeare, que em Macbeth pronuncia:

Amanhã e amanhã e amanhã,
Insinua-se este ritmo mesquinho dia após dia,
Até à última sílaba de tempo registrado,
E todos os nossos ontens iluminaram parvos
A caminho da morte poeirenta. Apaga-te, vela breve!
A vida não é mais que uma sombra ambulante, um pobre ator
Que se pavoneia e aflige durante a sua hora no palco
E depois não se ouve mais: é um conto
Contado por um idiota, cheio de som e fúria,
Não significando nada.

Um ótimo ponto de partida para um livro. E então o livro em si, uma narrativa que faz da literatura o que nos atrai sempre: um campo de descobertas, de incômodos, de indagações. Não respostas, não o “dar de bandeja”, nunca o tratar o leitor como alguém que não possa ir além, perguntar, responder, inquietar-se.

Os Compson, família decadente. Quatro capítulos, cada um, uma narrativa que mescla o fluxo da consciência de um dos membros dessa família com diálogos e descrições da vida correndo. Podíamos pensar que o “conto contado por um idiota, cheio de som e fúria, não significando nada” se referiria a esta primeira narrativa, focada/narrada pelo filho de 30 anos que parece ter três. A vida que se organiza no cuidado e frustração, nas tentativas e impossibilidades de lidar com alguém que não se pauta pela conduta ensinada, alguém que age impulsivamente e só chora, geme e muge.

Mas não, as outras 3 narrativas são todas tensas, todas fragmentadas na informação, todas em última instância não significando nada, pois parece ser essa a maldição dos Compsons: correr, girar, fazer, e não conseguir nada, não avançar em direção nenhuma que não a do inevitável processo entrópico de dissolução.

E o principal em literatura: o COMO. Ficamos muito tempo sem entender muito bem quem é quem na história, quem é filho, tio, sobrinha ou irmã. Quem é Quentin? É homem? Mas se referem a ela como ela em alguns momentos. E é proposital, ao invés de uma genealogia clara e descritiva (e tediosa), uma tensão até nisso, que poderia ser a coisa mais simples: mas isso apenas indica o problema ao qual tudo se referirá na novela, quem é quem, quem cuida de quem, quem tem que responsabilidades com quem, quem atura as conseqüências? E em diálogos que se repetem, como se repetem as dinâmicas familiares, em sofrimentos recorrentes como são os retornos eternos do que não se modifica, vemos a família sofrer, sofrer, sofrer, sem que isso signifique nada ao final.

Uma obra prima, dolorosamente verdadeira e intensa e necessária, ainda mais se pensamos que dentro de 17 anos ela fará seu centésimo aniversário! Um livro para quem trabalha com famílias, mas também para todo aquele que deseja ver como uma família se relaciona sem os vernizes das aparências, e aproveitemos que o natal e as festas de reunião estão chegando...