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sábado, 9 de agosto de 2014

Nascido para matar - Projeto Um filme quando valha a pena



Nascido para matar

Diretor: Stanley Kubrick
Inglaterra: 1987

Kubrick começou sua carreira com um clássico filme de guerra, o estupendo Glória feita de sangue (Paths of glory, 1957). Maravilhoso retrato da insanidade que é a guerra, dos que sofrem efetivamente com ela, dos mecanismos esquizofrênicos, psicóticos, surtados e que mais insanidades queiramos indicar, que conduzem os rumos das decisões dos que comandam os exércitos. Anos depois fez outro clássico (o que fazer se dos 12 filmes realizados efetivamente, uns 9 são clássicos?), Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, 1964), outro flagelo crítico, desta vez pelo humor absolutamente corrosivo de uma narrativa totalmente irreverente, mas igualmente insana.

Bom, pelo visto não era suficiente, e ele decidiu que precisava fazer outro, e fez, e o melhor, é outro clássico!!

E Nascido para matar é uma história, ou talvez fosse melhor dizer duas: a primeira sobre o treinamento dos recrutas que de inúteis passarão a Fuzileiros, maquinas de matar forjadas na base da humilhação e treinamento para a ação. Essa primeira parte tem desde momentos divertidos, pelo nervoso que passamos ao ver o bullying rolando solto encima do cristo da vez, o gordo Pyle, a angustiantes, por percebermos que o que se está fazendo é a dissolução de indivíduos, para transformá-los em massa de ataque. Sem pensamento, sem crítica, sem sentimento, apenas ação.

A segunda história é a chegada desse grupo seleto ao Vietnam, e um dos trunfos do filme é exatamente a dissociação entre a 1ª e a 2ª história: elas não tem nada a ver uma com a outra!! O que é curiosíssimo, porque deveria-se imaginar que um treinamento é para adequar o indivíduo a alguma ação ou contexto, mas o treinamento não tem essa função, serve unicamente para seu embrutecimento. Ao chegarem lá os Fuzileiros se deparam com o universo da guerra, a falta de sentido, a falta de compreensão, pelo não acolhimento dos vietnamitas, que não entendem que eles, os soldados, estão ali para ajuda-los (não pensar dá nisso...)

Há um longo confronto com um atirador de elite, um sniper, que tarda a ser localizado e aniquilado, e faz nesse interim uma série de mortos gringos, uma metáfora translúcida da desproporcionalidade de recursos que não inviabiliza que se derrube o golias da vez.

E por fim, o fim, patético como não poderia deixar de ser, e magistralmente feito, os idiotizados indo de volta para casa (casa?) ao som da musiquinha do Mickey mouse.

É muito fácil tanto resvalar para os filmes idiotas de guerra, que tomamos lado de um dos combatentes, e imediatamente desejamos que o outro perca, como fazer um filme crítico à guerra apelando para uma mensagem moralista que não se sustenta frente à humanidade real. Difícil é provocar-nos a entender que a situação não é boa, mas não há nenhuma saída fácil.












sábado, 2 de agosto de 2014

Medea - Projeto Um filme quando Valha a pena



Medea

Dinamarca: 1988
Diretor: Lars Von Trier

Como se faz para tornar filme um mito? E um mito de outro tempo, outra cultura, outros valores, outro tudo? Temos 3 opções: a primeira é fazer um filme “de época” dependendo do mito e dos recursos para a reconstituição da “época” em questão, o filme tenderá mais ao ridículo e menos ao mito, e esse é um problema comum, vide os filmes “clássicos dos anos 60/70 sobre temas míticos.

A segunda é fazer uma atualização do tempo da história, colocando-a na atualidade. Isso favorece uma identificação com a narrativa, mas pode fazer um estrago considerável se não se definir ao que se deseja ser fiel, à história ou a uma leitura dessa história. Penso no Anna Kerenina, ou no Karamazovi como exemplos atuais de filmes que foram nessa segunda linha e se saíram bem.

E a terceira é chutar o pau da barraca, e arriscar-se no que há de mais difícil no território do mito, que é criar o clima de irrealidade que faz do mito uma história inverossímil mas, pela resonância simbólica e emocional, verdadeira – nessas esferas.

Lars von Trier arriscou-se nesta última possibilidade com um agravante a mais, 19 anos antes dele, Pier Paolo Pasolini havia filmado o mesmo mito tomando a mesma vertente de irrealidade simbólica para contar a história da mulher traída pelo amado, que para puní-lo, mata sua esposa, e os proprios filhos.

E o bacana é dizer que o jovem von Trier (tinha então 28 anos) mandou bem. Criou uma atmosfera que não se prende a tempos nem figurinos de época, criando ao mesmo tempo um ambiente estranho pela cenografia criativa no uso de telas intermediárias, onde projetava imagens/cenários e interações; e figurinos e locações indefiníveis.

Muitos anos e filmes depois ele criou o movimento DOGMA, que propunha realizar filmes dentro de determinada cartilha. Cada vez mais acho que ele se propõe desafios para ver como sair deles, fez apenas um filme “dogmático”, Os Idiotas, e parece que aprendeu o que queria ali. Do mesmo modo, desafiou-se a tomar um roteiro do gigante do expressionismo alemão Dreyer (Carl Theodor Dreyer 1889–1968) e ver como fazia não uma cópia, mas uma homenagem, com enquadramentos, fotografia e interpretação que fossem desdobramentos dos feitos pelo mestre. Imagens belíssimas (vide alguns fotogramas abaixo), interpretações cuidadosas e uma experiência valiosa de cinema, com C maiúsculo!