terça-feira, 18 de outubro de 2011

Meu Tempo é Hoje – Paulinho da Viola - Projeto Um filme quando valha a pena


Meu Tempo é Hoje – Paulinho da Viola

Então era uma vez um moço que queria tocar, e tocar samba. O pai tocava violão, o moleque sempre teve músicos em casa, e pegou gosto pela coisa. Quando tinha 14 anos o pai disse quer estudar o quê filosofia (que pai iria isso a um filho???) medicina ou engenharia? E o moleque disse que queria um violão, e queria ser sambista.

E esta forma de contar a história, mesclando a musica com a vida, os pensamentos, a história não só pessoal, mas coletiva, é como foi organizado o filme. Tem momentos musicais, todos sem exceção maravilhosos. Tem as cenas familiares, intimas sem invasão ou pieguice, tem os coletivos, a Portela e os sambas de domingo, a escola do Zeca Pagodinho (até isso é bom...).

Mas principalmente a delicadeza. Uma grande amiga disse uma vez que Paulinho da Viola era um príncipe. Não sei. Batatinha diz numa outra musica, que o samba tinha de ter um ministério, e que o ministro seria Paulinho da Viola. Dado o inchaço da máquina publica creio que é melhor a idéia ficar só no simbolismo... Mas o cara creio, acima disso, é um cavalheiro. Delicado, cuidadoso, amoroso como transparece nas musicas e execuções.

Assistimos e temos a vontade de rever, não para descobrir mais coisas sobre ele, porque o filme não é voyeristico e mesmo as cenas da família e do que não costuma estar à vista, o hobby na marcenaria caseira, as visitas aos luthiers de cavacos e violões, não tem a intenção de mostrar o escondido, mas de compor um personagem com várias facetas.

E a música, voltemos a ela. Difícil um documento audiovisual que não pese mais no visual que no áudio. Pois bem, este consegue equilibrar com maestria, trazendo execuções primorosas com cenas que lentamente contam histórias. Um primor!

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Fabricando Tom Zé - Projeto Um filme quando valha a pena


Fabricando Tom Zé

Tom Zé é desses pirados que ainda existem no mundo, desses que sendo artistas criativos tem o cinismo, mesclado à modéstia de não “se acharem”, num mundo em que nada mais pode ficar perdido, seja de rótulos, de certezas, de seguranças.

É um documentário, mas não dos que tentam fazer uma rápida biografia do objeto de pesquisa visual, mas daqueles que misturam apresentações, um pouco de backstage e entrevistas dele, de invejosos, de admiradores.

Há cenas fantásticas, como a que ele empeita (literalmente) o técnico de som do festival de Montreaux, que queria diminuir a capacidade dos músicos brazucas de fazerem a passagem de som (Tom Zé deve ter hoje algo em torno de 70 anos, imaginem a quantidade de passagens de som que o cara já fez...) e o técnico sai com o rabo no meio das pernas, provavelmente assustado com a ferocidade da reação.

E esse mesmo Tom leva com a delicadeza mesclada ao seu usual cinismo, a profissão de jardineiro de seu prédio, ou a composição de uma música exclusivamente para uma apresentação (que acaba sendo um retumbante fracasso, que ele não tenta desculpar ou diminuir, mas afirma com toda a certeza de quem sabe que todos caímos).

E como bônus, várias musicas dele, apresentadas na turnee européia de 2008, musicas muito bacanas que saem completamente do esperado. Tom Zé não dá moleza para o ouvinte, ainda bem!!

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Os Clãs da lua Alfa – Philip K. Dick - Projeto um livro sempre:


Os Clãs da lua Alfa – Philip K. Dick

Quem já assistiu Blade Runner – O caçador de andróides conhece algo do P. Dick. Quem assistiu O vingador do futuro, um filme com o ridículo Schwarzenegger terá de deduzir um pouco, passando ao largo das incompetências do ator (...) para vislumbrar as idéias do escritor norteamericano. E poderíamos continuar a lista com várias outras adaptações para a telona, dos romances de ficção científica dele.

E para quem gosta de aproveitar a leitura de um livro para construir um mundo paralelo, no qual estamos ao mesmo tempo ausentes daqui, mas traçando conexões e articulações com nosso cotidiano, Dick faz não um prato cheio, mas um banquete, ao mesmo tempo simples, mas variado de possibilidades de leituras.

Neste livro, a história estapafúrdia ocorre simultaneamente na Terra e numa lua de um sistema Alfa, anteriormente usada como hospital psiquiátrico para terrestres loucos, clãs de maníacos, depressivos, hebefrênicos e outras rotulações psiquiátricas (com esses nomes) habitam uma lua e se relacionam de modo a lidar com as diferenças. Na Terra nesse ínterim ocorre uma trama cheia de reviravoltas que, não só não vou contar para não desfazer a surpresa de quem quiser ler, como não é o essencial.

O essencial sempre me parece o que se diz da nossa vida por meio de personagens situações e relações narradas. E aqui, o cinismo de olhar para pacientes psiquiátricos, com características estereotipadas de modo exacerbado que, entretanto, são muito mais razoáveis que os humanos terrestres convencionais. Sem entrar naquela discussão de que “de perto ninguém é normal”, Dick afirma a literatura de ficção científica, como um território não de escape da realidade cotidiana (como usualmente ocorre), mas de implicação NA realidade cotidiana. Em suma, um desses autores que nos prova que não importa o gênero literário, o assunto ou a habilidade do escritor, importa se a intenção da arte é mover o outro do lugar onde confortavelmente ou não, nos instalamos.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

A noite do Oráculo - Paul Auster - Projeto Um livro sempre


A noite do Oráculo - Paul Auster

A criação de uma história dentro da história é conhecida há séculos, desde pelo menos Shakespeare (se não quisermos tomar a alegoria da caverna de Platão como o exemplo mais remoto) temos essa estratégia, que organiza dentro de uma narrativa, uma outra história, que se articula com a primeira de modo a iluminá-la, complementá-la, criticá-la e outras possibilidades de articulação. Quando um autor faz isso, está conscientemente criando um jogo de referencias, no que o leitor pode entrar e sempre corre o risco de se perder, ou de pelo menos não ter certeza do que deveria encontrar.

Quando um romancista escreve uma história, está criando o primeiro nível de articulação, do que escreve com o mundo que vive, e que vivemos nós que o leremos. Ele cria um universo que ao mesmo tempo é “à parte” e se liga ao cotidiano, e esta é uma das características da arte. Quando Paul Auster cria uma história de um escritor às voltas com a tentativa de fazer um novo romance, faz da sua narrativa um evidente convite a que pensemos o oficio, dificuldades e possibilidades do escrever.

Quando a essa narrativa adiciona elementos que interatuam com a história que o personagem-escritor tenta escrever, implica o leitor no jogo de reflexos que se abrem ao infinito, o jogo de referencias apresenta-se quase interminável, com detalhes que podem ser interpretados e relacionados de muitos modos, aberturas de sentidos e possibilidades de entendimentos variados. Esta é outra das características da arte.

Auster é dos gringos um dos que mais gosto, não de todos seus livros, mas alguns tem essa beleza e complexidade, ternura e carinho para com o leitor, sem pieguices, sem concessões fáceis, sem abrir mão de criar espaços de instigação, para que possamos sempre ir mais alem.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

José e Pilar - Projeto Um filme quando valha a pena


José e Pilar

Documentários são sempre ariscos, é duro conseguir ver um que não foge da nossa vontade. Muitos são chatos, mal feitos, perdidos. Biografias são a pior espécie de filme que quer se levar a sério, tendenciosos, meio óbvios, explícitos até na forma de contar a história que de algum modo já se sabe onde vai terminar.

Por isso talvez tenha sido tão bacana assistir José e Pilar do Miguel Gonçalves Mendes, todos sabemos que o Saramago morreu, e velhinho, assim como sabemos que a Pilar era a que inspirou e alegrou a vida dele no últimos bons anos de vida. Mas a forma de fazer isso aparecer faz do filme uma obra linda e imperdível.

São os últimos anos de Saramago, abarcando a inauguração da Fundação Saramago em Lanzarote, onde eles viviam, e a publicação da Viagem do Elefante, que seria seu último livro, caso ele não tivesse tido uma idéia, no meio da tour de divulgação, para Caim, mas isso não aparece no filme.

E nesses anos, vemos o decaimento, a lenta aproximação da morte, tratada de modo tão doce e leve nas Intermitências da Morte, mas não por isso menos presente, incômoda ainda que, aparentemente, não ameaçadora. E vemos um Saramago risonho, piadista, cínico sem ser agressivo, humorista inteligente que não perdia bola nenhuma, e aproveitava para fazer piada de si, do ofício de escritor, dos jornalistas, da morte...

E são tantas as colocações bonitas, inteligentes, críticas que passamos o filme felizes de poder estar mais perto do autor, de outro modo do que o temos quando lemos. E há pessoas que ao lermos temos uma impressão muito diferente da que sua pessoa nos dá em entrevistas ou encontros sociais. Saramago parece ser no filme o mesmo que escrevia, e o vemos com o mesmo prazer e interesse.

A viagem do elefante não é o meu preferido dele, mas a articulação entre a viagem de Saramago no filme e do personagem título no livro vai-se abrindo em vários sentidos, um deles, a viagem final. E de viagens o filme não tem falta! Vão a vários locais para lançamentos, autógrafos, conferencias e homenagens.

E tem a Pilar também, que o filme não se chama José E Pilar por acaso, esse E implica que ela não é coajuvante, nem no filme e aparentemente nem na vida do seu José. Suas espanholices são muito divertidas (pelo menos para quem acha os espanhóis divertidos), e sua ação fundamental para que Saramago pudesse fazer o que necessitava, sem preocupar-se com o operacional.

Um belo filme, dos raros que vale a pena indicar.